quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Taxistas em trânsito


Cristiano Luiz Castilho *

Belina 90

Na propaganda da TV em 1968, o novo Ford Corcel avançava entre um Mustang e um Mercury Cougar, fazendo malabarismos e insinuando sua esportividade ao som de uma música do álbum “Pictures at an Exhibition”, do grupo de rock progressivo norte-americano Emerson, Lake & Palmer. A banda dividia apresentações com o Yes em vários países enquanto o carro com nome de cavalo conquistava adeptos no Brasil.
A Família Corcel viveu no Brasil de 1968 a 1986. O cavalo brasileiro, como ficou conhecido, deu crias: Corcel II, Del-Rey e Belina. Fabricado entre 1970 e 1991, a Belina era um carro espaçoso e imponente que agradou a muita gente: “Rapaz, olha: tive Parati, Del-Rey, mas um carro que gostei mesmo foi a Belina 90. Daquela, da Autolatina, sabe (?), com mecânica Volkswagen”.
O comentário sobre a Belina 1.8 Ghia ocasionou uma ajeitada viciosa nos impenetráveis óculos escuros e um relaxamento momentâneo dos braços do motorista, que vieram de encontro ao encosto de cabeça do banco do passageiro, como se o papo inicial tomasse novo fôlego.
Silvino
Silvino Alberto de Gasperi é taxista há 26 anos. Seu ponto fica no Largo Bayma, cruzamento da Avenida Batel com a rua Desembargador Motta, região nobre de Curitiba (PR). Basta dizer algumas palavras que Silvino entrega de bandeja as suas origens. Parece que coloca três ou quatro “éles” em cada palavra que contém a consoante, fazendo com que a italianice dos de Gasperi surja tanto na teimosia dos braços irrequietos quanto na dicção cantarolante. “Tenho até um fillllho meu que mora na Itálllia. Você veja como é:” – a frase surgiu após uma nova investida nos óculos, que sobrepunham com seu marrom-escuro os olhos indecifráveis. “Você veja como é: vieram os ‘véio’ de lá e agora voltam os novos. Ele tá lá há uns 16 ou 17 anos.”
Além do filho, Silvino tem mais uma filha, Laura, de 34 anos, mãe de Juliana, sua neta. “Todo mundo, os antigos mesmo, vieram por causa daquela ‘güérra’. A Itália era muito sofrida. Se escaparam pra não morrer, né? Era embarcar no navio e ‘seja o que Deus quiser’.”
Os bisavós de Silvino e de Dona Eva, sua esposa, embarcaram em 1914 com destino a Santos. Naquele ano, pouco mais de 79.232 europeus – dos quais 15.552 italianos - buscavam a paz no Brasil. A Guerra, ainda no seu início, consumia vidas e dividia famílias, não importando o lado pelo qual seu país de origem lutava.
No navio, quatro De Gasperi: o bisavô, a bisavó e mais dois familiares. Por motivo desconhecido, entretanto, o navio tomou outro rumo. “Olha, pelo que o pai fala, eles – os bisavós - se meteram nesse mundão pra fugir da ‘guerra’. Era pra aportar em Santos, mas eles foram sair lá no porto de Rio Grande.”
A cidade fica no extremo sul do Rio Grande do Sul, ao lado de Bagé, distante 1.566 quilômetros do destino previsto. Após meses navegando nada parecia impedir a sina dos de Gasperi. “Se aqui é Brasilll, é aqui que nós vamos ficar”, interpretou Silvino, deixando a mostra pela primeira vez o dente de ouro – frontal, do lado direito.
Após soltar o freio de mão, fazer andar a fila moto-perpétua de carros alaranjados, descer com o Gol Total Flex 2005 e tomar a posição privilegiada que dá direito ao próximo cliente, Silvino engata uma quinta na conversa: “Foram levar eles praquela região de Caxias ali, Farroupilha... na serra! Tu vê: vir lá de Rio Grande até a serra... e deu certo! É uma raça de gente esses italiano, viu, que olha... trabalha e não tem preguiça. Entraram naqueles mato, começaram a plantar e hoje tá umas baita de umas cidades”.
Primeira batalha
Arroio do Meio, cidadezinha com 19 mil habitantes do interior do Rio Grande do Sul tem uma única atração turística: o Morro do Gaúcho, cuja altitude se aproxima dos 600 metros, sendo constantemente utilizado para a prática do Vôo Livre. Os primeiros vôos do Gaúcho foram lá. Acordar às 5 da manhã e ajudar os pais na lavoura era mais do que uma aventura. No almoço, uma carninha de porco tostadinha acompanhada de arroz fresco ensopado no caldo grosso do feijão mais preto que se podia imaginar esperava os heróis. “Comida de mãe.”
No início da adolescência, Silvino, sem deixar de ajudar seus pais no plantio, abriu uma portinha. Uma oficina mecânica, que tocava com um amigo. Anos mais tarde um Ford-600, um caminhão de pequeno porte, encheu os olhos e esvaziou os bolsos do Gaúcho. Começou fazendo fretes de fumo pelas cidades vizinhas. Sozinho, aventureiro, em vôo livre.
Basta andar algumas quadras e a segurança de Silvino no volante é quase inalante. Sem mexer o pescoço, parece que olha em cinco espelhos ao mesmo tempo, e não a três alternadamente. “No trânsito é preciso ter mais atenção nos outros do que em você mesmo.”
A escola foi boa: primeiro o Exército, onde aprendeu a dirigir caminhão no ano em que Getúlio Vargas entrou para a história; depois a BR-116, que corta o interior do Rio Grande do Sul. Uma estrada estreita e sinuosíssima, porém envolta por belas paisagens da serra gaúcha. Nem parece BR; mal cabe um caminhão. A estrada realmente judiava: “De Vacaria a Porto Alegre era só serra, não tinha como”. Mudança de ares à vista em pleno vôo.
Em 1970 o pequeno Ford-600 azul se transformou em um Scania laranjinha – “tem que ser, só tinha laranja, né”. Os pequenos fretes viraram grandes viagens. Silvino “puxava” papel da Klabin, empresa paranaense com sede em Telêmaco Borba. Puxava para todo o Brasil e também para Argentina e Uruguai. Na década de 70 era comum caminhoneiros dormirem em hotéis de beira de estrada, almoçarem somente em restaurantes. “Foi a melhor época pra se ter caminhão.”
Em uma dessas noites, ao pedir um macarrão caseiro para o jantar, uma moça de cabelos castanhos lhe tirou o sono. Trouxe-lhe o prato encoberto por queijo ralado na hora, fumegando, um copo de vinho tinto – daqueles em que a borra deixa a sua marca – e alguns olhares que substituíram a sobremesa. Era sua futura esposa, que, de certa forma, o fez trocar de cidade – a distância de Curitiba a destinos recorrentes também pesou – e de volante. Da Scania para um Fusca, sem hesitação.
“O táxi é um serviço pro dono trabalhar. Não adianta ter empregado motorista.” Em 1981, Darci Picussa, amigo de Gaúcho confessou: “Não adianta, o Táxi não tá dando lucro, vou passar pra frente”. Darci tinha um motorista e a teoria se comprovou. “Eu compro”, disse Silvino sem nem mesmo ter o amigo finalizado a frase anterior. O Gaúcho havia vendido uma caminhonete meses antes e tinha dinheiro de sobra para arrendar o carro. Fusca 1973, impecável. “Com placa e tudo.”
As primeiras corridas foram ali mesmo, na região onde trabalha até hoje. Naquele tempo havia as pudicas viúvas que iam à Igreja; os senhores com óculos Ray-Ban que pediam para Silvino acelerar o Fusca, com medo de que perdessem o ônibus na rodoviária; as damas do Batel, pomposas senhoritas de meia idade que dedicavam os sábados à tarde às amigas, ao chá e às bolachas Maria.
Melhor amigo
O movimento era grande. O Fusca 73 exigido ao máximo naquele tempo, pois fora implantado um plano de isenção tarifária para taxistas. O desconto para cada táxi novo era em média de 12% e havia um limite de rodagem de três anos: mais táxis na praça, manchando de laranja as esquinas curitibanas.O telefone do ponto toca. O privilégio em atendê-lo é de só três pessoas, incluindo o Gaúcho. Silvino levanta rapidamente, pedindo licença quando já está há alguns passos de distância. Levanta as calças de linho cinza com ambas as mãos, afasta um pouco as pernas e corre em direção ao antigo aparelho. Sua voz muda um pouco, como se desde aquele momento estivesse oferecendo o melhor serviço e prezasse por cada sílaba pronunciada.
“Pronto! (...) Sim... 286... é? (...) já estou indo.” Dou a entender que quero acompanhar sua corrida. “Mas e se ela estiver com o marido?”, pergunta Silvino, com uma mão na maçaneta e a outra ajeitando a camisa branca, de algodão, que ignorava os dois primeiros botões e deixava parte do peito à mostra. “Tudo bem, vamos lá.”
Aquele Gol Total Flex 2005 só serviria para ser Táxi. Nele não há aquele aromatizador nostálgico em saquinhos de veludo, típico de carro de pai. Muito menos a rebeldia juvenil, perceptível na ausência de calotas, na dedicação às grandes caixas de som ou à aparência esportiva que utensílios diversos dão aos carros mais inofensivos. Nada disso.
É só um Gol 1.0 2005 quatro portas. No painel, sob os mostradores analógicos, há um pedaço de veludo verde, colocado para que as canetas não risquem o plástico subjacente. No volante as famosas bolinhas, dispersas, e com algumas camadas quase se desprendendo. As elevações arredondadas evitam o contato direto com o volante, que, a longo prazo, fica mais liso e de difícil manuseio. No banco, entretanto, não há as bolinhas maiores, de madeira, mal julgadas pelos leigos.
A função do aparato não é fazer massagem ou coisa parecida, mas sim evitar o contato direto do corpo com o banco e, assim, evitar o suor. Sentado no banco, prestes a ligar o veículo, Gaúcho é o rei do mundo. Anda sempre em baixa rotação e troca de marchas como se acariciasse uma criança. O volante é a extensão de seus curtos braços e gira lentamente para a direita, a caminho do número 286 da Rua Emiliano Perneta, centro de Curitiba.

Rádios e manchetes

O rádio, desligado, marca duas horas a menos do que o horário real, e o bloquinho de anotações no console embaixo do aparelho parece metodicamente organizado; canetas coloridas e cartões de apresentação do taxista completam o pequeno espaço.
A senhora, de uns 60 anos, embarcou pela porta traseira esquerda. Levava um pedacinho de papel em suas mãos sardentas, onde constava o endereço de destino escrito rapidamente à caneta azul: Avenida Sete de Setembro, 5406. Dona Cenise mora em Clevelândia - na mesma cidade do interior do Paraná em que Silvino passou parte da vida transportando papel para a Klabin, antes de se mudar em definitivo para Curitiba – e vem à capital com Alceu, seu marido, de tempos em tempos para avaliações médicas. É cliente de Silvino há 10 anos. “O táxi nos serve bem. Deixamos o carro na garagem e ligamos para o Silvino. Nos achamos de novo aqui em Curitiba.”
O endereço de destino era um prédio alto no final da Avenida. A clínica médica era no 11º andar. “Pode ir tranqüila, Dona Cenise. Eu aguardo aqui.” A senhora levantou com o papel em mãos, olhando de um lado para o outro. Ao mesmo tempo o Gol Total Flex encontrava seu lugar entre uma grande caminhonete e uma caçamba de lixo. O taxímetro, em bandeira 1, marcava R$ 11,50. Antes de se dar conta de que iria esperar a cliente, Silvino colocou o braço para fora da janela, ajeitou mais uma vez os óculos intransponíveis, como se um ritual se iniciasse.
“A gente acostuma a esperar. Leio a Tribuna, ouço a Banda B ou fico simplesmente sem fazer nada.” A Tribuna do Paraná, jornal popular de Curitiba, trazia em sua manchete daquela terça-feira: “Silêncio na Vila: carro de som já estava a caminho pra fazer a surpresa, mas assassinos chegaram antes e mataram filho de 15 anos, no Cajuru. Um foi preso”.
A rádio AM Banda B trazia a notícia da contratação de um “novo-velho” zagueiro pelo Paraná Clube: “O ex-tricolor Nem, que defendeu o rival Atlético na campanha do título brasileiro de 2001, está de volta à Vila após seis anos”. O jornal de caráter popular e a rádio AM são um retrato da personalidade da maioria dos taxistas. As notícias de esporte, trânsito e a ronda policial, além de serem úteis em alguns casos, permeiam a rede de interesses dos profissionais.
Há duas opções para os taxistas: ser dono do seu próprio carro ou pertencer a alguma “faixa” e trabalhar para empresas do ramo, dividindo um veículo com outro profissional e pagando taxas mensais no valor médio de R$ 500 só para “atender o radinho”, não importando a distância a ser percorrida.

Feijão e carne

Oito faixas grudam seus adesivos nos táxis de Curitiba, e as vantagens são para os profissionais que trabalham à noite: “Os clientes geralmente têm cadastro, você sabe com quem está lidando. Mas eu trabalho só de dia... o pontinho aqui sai bem e às vezes encosto em um ou outro ponto, então... Olha! Esse aqui é um ponto livre, tá vendo?”, comentou Silvino, após deixar Dona Denise em casa e partir rumo ao seu habitat natural, à espera de outra corrida, como faz 6 vezes por semana há 26 anos.
Três outros taxistas aguardam passageiros no Largo Bayma. Dois deles, fixos do ponto e com carro próprio, conversam com os pés por sobre o banco de madeira. O terceiro, paga o preço da faixa que leva em seu Fiat Palio Weekend. Não sai do carro, atento ao radinho e ao possível passageiro. Enquanto aguarda a nova jornada, Silvino me explica como funciona o taxímetro, após tomar um gole comprido da sua água mineral: eterna passageira. O objeto, situado sobre o painel do táxi, é alvo de todos os olhares. Os números, em vermelho e em Reais, só dão lugar ao alfabeto quando o táxi está livre.
Há um “L” imponente no visor quando o Gaúcho começa a explicação, apertando um botão preto sobressalente: “Aqui você zera. Zerou, tá vendo? Agora você embandeira ele. Aperta aqui... não. Eu fiz errado”. Uma nova ajeitada nos óculos escuros e um som de negação produzido com os lábios fazem Silvino tirar a mão do aparelho momentaneamente. “Bandeira 1, tá vendo? Mas sábado a partir das 13h até segunda-feira às 06h, aí é bandeira 2.” A diferença entre o valor do quilômetro rodado é de 27% a mais para a bandeira 2 e o táxi já sai de seu ponto com R$ 3,50 no marcador - na bandeira 1 -, independentemente do seu destino.
A vizinhança ao redor do ponto do Largo Bayma mistura atrações noturnas que não fazem parte da vida de um taxista e pequenos bares e estabelecimentos comerciais, que inevitavelmente fazem parte da rotina laranja. Mata-se o tempo na praça, come-se um almoço honesto no restaurante da esquina, compra-se um doce na banquinha de Ideo. O nipônico de meia-idade e de pouquíssimas palavras Ideo Matsubara é proprietário da banca de jornais há dez anos. Doce de amendoim faz sucesso entre os motoristas. Os campeões de venda são jornais e a água mineral, quase sempre presentes em consoles, porta-luvas ou nas mãos dos taxistas.
Exceto um restaurantezinho há meia quadra dali, as opções viáveis de alimentação na região se esgotam. É por isso que Silvino almoça em casa todos os dias. O feijão preto e a carne de porco bem tostada o remetem à infância no interior do Rio Grande do Sul e não o deixam esquecer do gosto daqueles anos.
“Minha esposa cozinha muito bem. Lembra muito a comida da mãe.” Após o almoço, uma rápida esticada de pernas, um piscar graúdo; mas que não se transformam nem sequer em cochilo. Por volta das 13h30, Silvino sai de casa para sua outra moradia. Mais um sinal da cruz. Mais aventuras à vista.

No ponto (1)

Só em Curitiba, são 2.253 táxis circulando em média 300 quilômetros por dia. Cerca de 12% do total é de mulheres. O restante? Motoristas homens que convivem com passageiros de todos os tipos. Todos mesmo. Há uns cinco ou seis anos, às 8h30, Silvino observava algumas viaturas da Polícia Militar que seguravam os carros com o som de suas agudas sirenes. Ali, bem em frente ao seu ponto. Logo depois uma moto foi deixada na esquina, sobre a grama da praça e os dois sujeitos que dela desceram entraram no táxi.
- Me leva pra São José dos Pinhais - disse um deles. - Deu problema na moto, é? Por isso deixaram ali? – Questionou Silvino, percebendo algo de estranho.- É. A moto tá falhando. Agora o senhor leva a gente pra São José dos Pinhais. Temos um compromisso lá e estamos com pressa. E se o senhor caprichar e for rapidinho, vou te dar uma gorjeta.
Um dos sujeitos sentou ao lado de Silvino, no banco de passageiro. O outro, exatamente atrás do motorista.
- Reconheço até hoje o que sentou atrás de mim. Se o vir, identifico na hora, é um daqueles vermelhinhos, ruivo, é, de cabelo encaracolado – lembra o Gaúcho, gaguejando um pouco e deixando escapar um ar de inquietação. O táxi de Silvino chegou ao cruzamento das Ruas Silva Jardim e João Negrão, caminho da avenida que leva a São José dos Pinhais e ao aeroporto Afonso Pena.
- Eu parei no sinal. Não tinha como avançar.
Enquanto os três aguardavam o verde, o passageiro ruivo fez um pedido que mudaria a corrida daquela manhã.
- Passa o meu boné, que tá em cima da bolsa.
O sujeito sentado à frente recolheu o boné preto e deixou à mostra o que estava por baixo: uma bolsa semi-aberta recheada de dinheiro.
- Puta que o pariu! Esses caras são malacos! – Pensou Silvino, engatando a primeira e pensando no pior.

No ponto (2)

Chegando em São José, a situação se tornou mais estranha. Os passageiros não sabiam seu destino com precisão e titubeavam ao dar referências. Após alguns minutos perdidos, ouviu-se a voz do ruivo novamente:
- Pode parar aí, taxista. Tá aqui o seu dinheiro.
Silvino recebeu duas notas de R$ 50. O taxímetro não marcava nem R$ 40.
- Não, não. Tá tudo certo. Só a partir de hoje você não sabe quem eu sou e você nunca me viu.- Tá certo, tá certo. Vocês me trataram bem. Não teria motivos pra fazer nada – respondeu Silvino, já desviando o olhar.
Ao retornar ao ponto, a moto ainda estava lá. Silvino e Anselmo, outro taxista da região, foram até o veículo e constataram a placa virada, prejudicando totalmente a identificação.
- Te falei, Anselmo. Essa moto tem rolo.- Vamos fazer o seguinte: eu tenho um amigo conhecido na PM. Vou dar a placa da moto e ele vê se tem rolo mesmo.
A moto tinha sido roubada às 5h ou 6h da manhã em São José dos Pinhais. No mesmo dia, pelas 8h, um grande assalto ao Banco Real tinha acontecido no centro de Curitiba. O banco abriu mais cedo para pagar os aposentados. A única notícia até o momento era que uma moto estava envolvida.
- Deve ser esta, Anselmo. E não tá mais aqui quem falou.
Taxistas são psicólogos: os melhores amigos e os homens do tempo quando o passageiro quer. E outras tantas coisas quando o destino lhes prega peças.
Num outro dia, no ponto de sempre, um sujeito carrancudo entra pela porta do passageiro sem dar bom dia.
- Me leva na Vila São Pedro.- Agora espera um pouquinho aí – disse novamente o passageiro.
O rapaz retornou ao carro com diversos sacos e sacolas.
- Agora você me leva lá no Capão Raso.
Ambos chegaram a uma favela da região, andando por diversas ruas, até repetirem algumas e Silvino perguntar:
- Não tô te entendendo. Você vem pra cá, vai pra lá. Você não sabe pra onde você vai?- Você não me manjou ainda? Eu quero matar um cara! Preciso achar ele antes. Tá aqui o revólver, ó! Você me leva até o cara, eu mato ele e aí você me deixa em qualquer lugar longe daqui. O dinheiro tá aqui. Tem um monte de dinheiro – disse o homem, impaciente.

No ponto (3)

Silvino parou em todos os botecos, mercearias e até em algumas casas da região: nada do possível alvo.
- Poxa. Vamos parar com isso? Você não achou o cara e eu vou embora. É tarde.
O sujeito, vestido de preto, pagou a corrida e desceu, aceitando os argumentos.
- Tá bom, tá bom. Vou te liberar.
Um crime a menos, uma história a mais.
A viagem mais longa foi também a mais triste. Há oito anos o destino era Taquiraí, no Mato Grosso. Um casal jovem tentava há dias salvar o filho de uma doença rara. A criança de quase cinco anos estava internada no hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, há quase um mês. No carro da época, uma Parati, o casal viajou no banco de trás e a criança no porta-malas, falecida. O cheiro de flores exalava a cada instante. O caixãozinho branco era motivo de preocupação do casal, que inúmeras vezes se debruçou por sobre a madeira, como se esperasse um milagre repentino.
“Eu nem sabia que podia levar no táxi. Tive que ir até a Central de Luto e tirar uma papelada”, diz Silvino, sem vacilar no tom de voz. A doença fazia com que os alimentos e os líquidos ingeridos não fossem absorvidos, facilitando as infecções internas. Aos dois anos o primeiro sinal: a barriga inchava a cada refeição. A escolha pelo táxi foi passional. Se algum carro fúnebre fizesse o transporte, os pais não teriam permissão de ir ao lado do corpo de seu filho. “Eles foram à luta pra tentar salvar aquela criança, viu. Foram à Campo Grande, São Paulo e chegaram aqui, com esperança. Mas não deu.” A corrida custou R$ 800 à família e algumas lágrimas a Silvino, quando viu os familiares em direção ao caixão e os pais, já em prantos, à procura do abraço mais próximo.

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As conversas sem propósito – a não ser para interromper o silêncio – sobre o clima, o trânsito ou outros assuntos banais quase nunca partem de um taxista. “A primeira coisa que faço é desligar o rádio. O passageiro não é obrigado a ouvir o que eu ouço. Vai saber se ele gosta de música sertaneja?”, explica o Gaúcho. A primeira sentença de um diálogo dentro do táxi de Silvino sempre parte do passageiro. “Quando ele fala, dá liberdade pra eu falar também.”
Por mais que a maioria absoluta das conversas não passe do trivial clima-trânsito-futebol, boas amizades já foram construídas sobre quatro rodas. Uma das chances para isso são os fatos históricos ou geográficos.
Nascer na mesma cidade, relembrar acontecimentos do País ou ter a mesma visão sobre algum assunto políticos, por exemplo, são ótimas ferramentas para que o diálogo se desenvolva naturalmente. Poderíamos pensar que a corrida se acabará em poucos minutos e que não valha a pena desperdiçar saliva com alguém que você provavelmente nunca mais verá na vida. Mas é presunção das mais terríveis achar que não vale a pena conversar e principalmente ouvir os psicólogos do trânsito, especialistas em seres humanos com pressa.
“Têm uns bacanas, mas curitibano é meio complicado, viu”. A máxima de que os curitibanos são fechados e não gostam de conversa tem reforço perante os taxistas. Não se sabe se é pelo frio, por características históricas, pela necessidade de tempo para se fazer um amigo verdadeiro ou pelo nariz empinado mesmo. Silvino percebe com facilidade quando o passageiro é conterrâneo de Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Um dos maiores escritores brasileiros e avesso à entrevistas, fotos e aparições públicas. Mas a timidez típica curitibana não é mais problema para Silvino: “Eu penso: então tá bom, né”. E o único som que se ouve é do carro, que segue na trilha do silêncio pré-arranjado e que às vezes incomoda por ser alto demais.
Os “estrangeiros” também não são um exemplo de cordialidade. As conversas giram em torno de informações da cidade. Restaurantes, hotéis e casas noturnas. De todos os tipos: “ontem ainda atendi um cliente de Chapecó querendo saber o lugar ‘quente’ de Curitiba”, revela Silvino. “Indiquei o Café Paris... Ali desfilam umas ‘pernudas’ bonitas”, completa, aos risos.
Dirigir é só uma parte da profissão. É preciso ser simpático, ter sorte e ser um bom guia para turistas com os mais variados gostos. O resultado se dá na gorjeta inesperada oferecida por um assaltante de banco ou a uma ligação inesperada de um passageiro de Porto Alegre, que fez algumas corridas com Silvino suficientes para iniciar uma amizade duradoura.
Melhor amiga
Aquela terça-feira era também o dia dos namorados. O ponto do Largo Bayma fica próximo a um dos maiores shoppings da cidade. Era possível ver algum atrasado portando uma sacolinha modesta. Outra moça loira atende ao celular, logo depois de abrir um sorriso e diminuir os passos.
O que se passaria no almoço daquele casal que mora no prédio em frente ao hotel em que Silvino utiliza após acabar com algumas garrafinhas de água mineral? Questionado sobre o que daria a sua esposa em um dia como esses, o Gaúcho é irônico: “É a mesma coisa que o gato brincar com a cola. O casamento é uma coisa boa, mas depois de um certo tempo você vira amigo. Não adianta você querer trocar uma mulher por outra porque é tudo igual. A mulher vai querer te explorar!”.
Neste momento um carro saía da vaga privilegiada e dava a vez ao Gol, que após deslizar uns 15 metros parou bruscamente após um puxão ruidoso no freio de mão. Silvino não parou de falar durante o processo e mexia no bigode como se quisesse roer as unhas e algo o impedisse.
“A mulher quer ter vantagem em cima do marido. Esse negócio de dizer que mulher é apaixonada... Isso aí, eu não sei... Ela quer dinheiro, andar bem vestidinha. Isso é com 99% das mulheres.” O discurso é completado com um aviso: “Se elas puderem tomar um troco de você, elas tomam!”.

A turma

A solidão que antecede uma nova corrida é enganada com as notícias dada pelos jornais do dia, pelas músicas do rádio e pelas conversas com os outros taxistas do ponto. Hilário Iavorski, 53 anos, é daqueles polacos típicos. Cabelos ralos e brancos. Olhos claros, sotaque forte. E um chinelo de dedos que fazia frente à sua camisa social amarelo-ocre. Taxista há 24 anos, Hilário “piranhava” no ponto de Silvino. “Piranhar” é aguardar passageiros em algum ponto que não o seu. O táxi de Hilário é um Fiat Marea cheirando a novo.
Sentado ao banco do motorista e com o cotovelo do braço esquerdo para fora, desatou a falar, mas sem nunca se descuidar do radinho logo à frente. Hilário trabalha para uma das “faixas” da cidade.
“Comecei na faixa Lima, que cobrava um absurdo pela diária do táxi. Eu dividia o carro com outro motorista, mas não tinha jeito. Precisava de um carro só meu. Em 1994 eu vendi tudo o que eu tinha para comprar meu próprio táxi: casa, telefone, só não vendi a mulher e as crianças porque ninguém quis comprar. E ainda fiquei devendo um pouco.”
Não era um sonho de consumo, mas um meio de trabalho. E não importava o estado em que estava. O importante era a garantia de que andasse.
“Comprei um prêmio 1986 caindo aos pedaços, redondo de tanta porrada. Fiquei com ele durante um ano até poder comprar outro com a ajuda do plano de isenção.”
Mesmo após tanto esforço, o colega de Silvino aponta as dificuldades da profissão. “Foi um bom negócio, mas a gente trabalha como escravo. Quinze horas por dia, no meu caso. De segunda à sábado das 07h às 22h. E todo domingo pela manhã. Com o táxi sendo controlado pela faixa a que pertence e o motorista pelo rádio que não tem hora pra chamar, necessidades básicas de um trabalhador muitas vezes são prejudicadas.
“A gente almoça só quando dá tempo. Veja, são 15h e eu acabei de almoçar... Foi ali na esquina, coisa rápida... – a conversa é interrompida por um chamado indecifrável no rádio. Hilário volta prontamente sua atenção para dentro do veículo e responde ao chamado: “1907. Dezenove, zero, sete”. Agradece e se desculpa, dizendo que a profissão o chamava. A vaga dá lugar ao carro de Renato Reimann, 54 anos, o mais antigo da praça. São 37 anos atrás do volante.
Enquanto conversava com o taxista à sua frente, já percebia os movimentos firmes de Renato. Saira do carro, apoiara-se com seus tênis com amortecedores na porta do motorista e ajeitara os óculos espelhados, que realmente não condiziam com sua idade. Uma voz poderosa sai de repente de lábios que quase não fazem esforço.
“Conheço o Silvino há 25 anos, desde que ele comprou o carro do ‘baixinho’. Não tem nada o que falar dele. É só coisa boa. A gente é amigão... Nos damos bem... Eu sou gaúcho também. Suas poucas palavras iam contra a expressão do resto do seu corpo, que, plantado ao lado da porta da Parati, dava total atenção à conversa.
- O Silvino tá rodando agora? – Perguntei, esperando resposta seca.- Não sei não. O Silvino é meio folgado, né? Aposentado e tal, sabe como é.
A revelação, apesar de parecer incoerente com as respostas anteriores, demonstrava a real amizade entre dois colegas que dividiam uma praça há 25 anos. A difícil situação econômica dos taxistas de Curitiba mais uma vez é revelada, em tom nostálgico. “Sabe... eu não tenho muito, mas comprei tudo graças ao táxi e ao meu trabalho. E não dá pra viver bem. Dá pra viver.”

Renato

Renato foi o pioneiro de doze familiares taxistas, começando como “piranha” em pontos diversos da Capital e da região metropolitana de Curitiba.
Quando começou na praça, há 37 anos, Renato era um “piazão cabeludo”. A aparência contribuía para reforçar a imagem que os taxistas passavam na época: de que quem trabalhava na praça tinha problemas na justiça e não era capaz de exercer outra profissão.
A situação mudou e o preconceito diminuiu. Um sobrinho de Renato fez bico na praça e hoje é médico formado; há antigos gerentes de banco que hoje são proprietários de táxi; tem taxista do ponto do Largo Bayma que cursa faculdade à noite.
“Tem uns atrasados aí que pararam no tempo, mas mundo dos taxistas mudou da água para o vinho”, esclarece Renato, que continua no mesmo tom contundente mesmo sem movimentar um osso. Na época do primeiro táxi, passageiros formavam fila na Praça Zacarias. O Fusca vivia cheio, sempre cheio. Hoje já não é mais assim. Taxistas se digladiam silenciosamente em busca de uma nova corrida.
Mas a culpa não é do transporte coletivo, segundo o motorista, que vestia uma camisa pólo manchada. “O ônibus não atrapalha o taxista. E precisa ter, porque um operário tanto há 30 anos atrás como hoje, não pode andar de táxi. O que atrapalha é a aquisição dos carros particulares, que incham o mercado.” Em 1973, a URBS – órgão que regula o transporte público de Curitiba - liberou a última remessa de placas que possibilitam o taxista a ingressar tradicionalmente no mercado.
Desde então, o número de táxis em Curitiba vem crescendo muito abaixo do que seria normal. Tanto pela opção por ônibus e transporte em massa ou pela escolha dos taxistas, que preferem ser donos de seus próprios veículos a pagar taxas mensais a empresas. A URBS, no entanto, fiscaliza todos através de uma revisão mensal nos automóveis. Renato compara, saudoso e preciso dois diferentes momentos. “Há 15 anos atrás rodava 500 quilômetros por dia com meu Fusquinha. Hoje, dá 200 no máximo. Mas fazer o que? Tem que trabalhar até não poder mais.”

Gasolina barata

A sede do sindicato dos taxistas de Curitiba e região metropolitana está em reformas. Há madeiras espalhadas pelo chão. Móveis em fim de carreira esperando algum destino, cimento fresco em vários locais. A casa, de esquina, com três cômodos e muito espaço para os carros tinha um problema de vazamento no telhado. Antes das obras, um teto provisório de alumínio foi erguido para proteger a casa dos males do tempo. Agora, a impressão que se tem é de algo improvisado e inacabado, por mais que as obras sejam para a reforma total da casa. Algo como um grande elefante branco. Que anda.
Há duas entradas possíveis. Uma dá acesso direto à área de “pintura”. É onde os carros laranjas chegam e recebem o adesivo quadriculado em preto e o número de identificação do veículo. No momento, Augusto, funcionário do local dava a um Fiat Palio sem placas o item de exclusividade, o diferenciando dos demais 800 mil veículos da cidade – a frota de carros de Curitiba deve chegar a um milhão de veículos até o final do mês de julho.
Neves e Leandro são os outros frentistas. São ambos morenos com menos de 35 anos, que com o uniforme sujo de graxa, se posicionam em frente às bombas de combustível. Os taxistas sindicalizados, como Silvino, correspondem a menos de 30% do total de profissionais de Curitiba. O preço mais em conta da gasolina é um dos pontos positivos. O preço do álcool anidro, verificado no posto mais próximo, era de R$ 1,39 por litro. No sindicato, o valor caia para R$ 1,09 pela mesma quantidade. Outros benefícios são os convênios com lojas e clínicas médicas e o auxílio jurídico. A mensalidade é no valor de R$ 11,40 (3% do salário mínimo).
Pedro Chalus é o presidente há quatro anos. Taxista há 30, o homem vestia uma camisa risca-de-giz, calça e sapato social. Nos cabelos, gel espalhado em todos os fios, deixando o cabelo grisalho da mesma forma dos cachos de quem acaba de acordar. Pedro me chama para dentro do que seria a sala principal. Ficamos ambos em pé, ao lado de Adriane, a secretária. Uma jovem loira de cabelos lisos, que remexia papéis, encarcerada por um vidro e por uma pilha de jornais do sindicato.
O Jornal Oficial do Sindicato dos Taxistas do Estado do Paraná trazia notícias diversas. Desde a valorização do trabalho do Sindicato, comprovadas com fotos na capa, passando por avisos em relação à obesidade, campeonato das centrais de Rádio Táxi de Curitiba – as faixas – e terminando em denúncia e apelo à segurança municipal. “Taxistas dos centros urbanos temem cada vez mais a violência e sofrem com o medo dos assaltos e das agressões.”
O jornal mensal destacava o que mais era esperado em relatos de taxistas, mas que não foi encontrado em nenhum dos depoimentos. Silvino é invicto. Nunca sofreu um assalto sequer. Renato e Hilário também. Questionado sobre o melhor carro para o taxista, Pedro pede confirmação de outro funcionário.
Qual o carro mais confiável? “Santana”, respondem quase em uníssono. Confiam no carro como confiam no melhor amigo. Um carro não pode deixá-los na mão; um carro merece ser bem cuidado. Um amigo é para a vida toda. Prova viva da analogia é a Belina 1.8 Ghia de Silvino: inesquecível.


* Jornalista e pós-graduando em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), turma de Curitiba (PR), 2007.

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